sábado, 31 de outubro de 2009

RAMAZZINI - As doenças do trabalho

No ano de 2000 se comemorou o aniversário dos 300 anos da publicação De morbis artificum diatriba- Bernadino Ramazzini, (“As doenças dos trabalhadores” - traduzido para o português pelo médico Raimundo Estrela - 1999, 2ª ed., S. Paulo, Fundacentro), esta devia ser uma prática mais comum em homenagear certos célebres, mesmo que ainda sendo algo pequeno em comparação ao tamanho da importância de alguns feitos, por inúmeras personalidades de destaque e, em nosso meio, que é Segurança e Saúde no Trabalho, devemos não somente nos centenários, mas diariamente reconhecermos contribuições e figuras que trouxeram avanços significativos.

O italiano Bernardino Ramazzini (1633 – 1717), médico e professor em Modena e Pádua, tem seu nome escrito no quadro da medicina mundial, bem sabemos que ele não foi o primeiro, mas seus estudos que aqui serão lembrados, são preciosidades dignas de um apaixonado por soluções de doenças, ou melhor, um amante da vida, porque lutava a favor do fim de todos os males que afetavam os trabalhadores.

Digo que não foi o primeiro porque há registros de Hipócrates (c.460-c. 377 a.C) que conduzem a ser ele quem primeiramente observou uma doença profissional, à época, se tratava da cólica, que se dava pela extração de metais como o chumbo, seguido por Plínio o Velho (23 – 79) um médico romano que observou o envenenamento pelo mercúrio, doença típica de escravos do Império.

Bem mais a frente, ainda se destacaram; Georg Bauer (1494 – 1555), com estudos relativos as doenças contraídas por extração de minérios metálicos, o caso do ouro e da prata, de grande importância também porque descreveu sobre as dificuldades em respirar e a destruição dos pulmões causados pela inalação de poeiras, e a destaca-se também a contribuição de Paracelsus ( 1493 – 1541), por seus ímpetos em rasgar obras da medicina arábico-galênico, assim desviando-se dessas doutrinas, deu um enorme passo para que a medicina ocidental se estabelece-se.

Após esses episódios, Ramazzini buscou maior complexidade e abrangendo o campo das doenças profissionais, observou de forma minuciosa e de participação ativa em seus estudos de causa, visitando e acompanhando as tarefas realizadas pelos obreiros, desde suas condições, posturas e ambientes de trabalho. Ramazzini pesquisou profissões jamais avaliadas por outros médicos que nunca haviam percebido que as causas das doenças eram oriundas de suas funções. Mesmo que Ramazzini não seja considerado o “Pai da Medicina do Trabalho” ele se empenhou em tratar de seus pacientes e a sua preocupação ia além da enfermidade, questionando-os através de perguntas, entre elas; que arte você exerce? Assim demonstrando que naquela época daria um passo além de uma revolução, pois seu uso e fatos decorrentes até hoje é percebido.

Dentre as atividades de mineração teve especial atenção. A extração de metais causou várias doenças pulmonares. A silicose já havia sido descrita por ele juntamente com a pneumoconiose, motivo este que causou risos por médicos da época, quando exercia seus estudos diretamente nos locais de trabalho.

O que se fazia à época era o tratamento das doenças e Ramazzini revolucionou com a prática da prevenção, deixando em segundo plano o tratamento pós doença. Preocupou-se pela área odontológica, onde esses profissionais em contato com o mercúrio, a pele ao absorver, causava graves quadros de intoxicação.

Foi também o percussor da Ergonomia, por notar posições errôneas e viciosas, causadoras de problemas ósteo-articulares. Nas atividades sedentárias percebeu inúmeras doenças causadas em obreiros submetidos por atividades que as permitiam, sugeriu então a ginástica corporal.

Entre outras, o trabalho braçal e os esforços físicos e repetitivos que causam a LER (Lesão por Esforço Repetitivo), mencionou em sua obra as influencias da anormalidade do sono, ou aqueles que trocam as noites de sono por turnos de serviços, os artesões que se esforçavam até estarem tomados por fadigas.

Contemplou sobre a exposição por poeiras de cereais, não podem ser evitadas na aspiração, formando o quadro típico da asma profissional, havendo citado ainda sua preocupação com os tecelões que aspiravam um pó espesso e danoso, doença da bissinose, que fora descrita cientificamente no ano de 1959.

Não parou com suas observações quando citou o ruído industrial com suas causas e efeitos danosos em todos os órgãos da audição. Talvez pouca referência tenha feito a respeito de inalações à gases , porém só pelo fato de ter mencionado as conseqüências causadas pelo ataque do fumo do carvão em meio ao clima de inverno, já servia de alerta a futuros estudos por seus sucessores. Em contra partida fez referência aos trabalhadores em salinas, onde o sal é o causador de pútridas chagas nas pernas. Surpreendendo até os dias de hoje das observações feitas às condições insalubres dos militares, com má alimentação e impurezas nas águas, na época os soldados se queixavam de dores, e cansaços, eles eram portadores de icterícia em epidemia, tratava-se de moléstia contagiosa, denominada hepatite infecciosa.

Ao passo que seus estudos se deram anteriormente a Revolução Industrial, outras personalidades pós Revolução receberam algumas homenagens como o engenheiro norte-americano Frederick W. Taylor que propôs uma intensificação na divisão do trabalho, ou seja, fracionar as etapas do processo produtivo de modo que o trabalhador desenvolvesse tarefas ultra-especializadas e repetitivas, assim separando o trabalho intelectual do manual, isso lhe rendeu o título de “pai da administração cientifica”. Outro norte-americano Henry Ford, foi o primeiro a pôr em prática, na sua empresa “Ford Motor Company” a consistência em organizar linhas de montagem para que cada fábrica produzisse mais, controlando melhor as fontes de matérias-primas e de energia, os transportes, a formação da mão-de-obra, para tanto adotou três princípios básicos; a intensificação, a economia e a produtividade.

Realmente Ramazzini não conheceu a Revolução Industrial, por isso seu destaque diante dos demais é conspícuo, onde qualquer crítico perceberá as diferenças de gerações, um preocupado com causas de doenças e outra alarmantemente dedicada as produções que se embalaram pelo “pool” de máquinas e contratações em massa de pessoas trabalhando sobre um olhar de rendimentos e supervalorização de metas. Infelizmente seu título de “the father of occupational medicine” sugerida por Schilling que causou aversão há muitos que simplesmente o reconhecem como o fundador da patologia clínica ocupacional e, eventualmente, da epidemiologia ocupacional (Graça, 1996). Alguns países sequer lembraram seus feitos na ocasião dos 300 anos de seu tratado, mas felizmente no Brasil foram condignamente assinalados, nomeadamente pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT).


Marcelo Ferreira

Técnico em Segurança do Trabalho

macerreira@gmail.com